Terça-feira, 23 de Outubro de 2007

ALGUMAS NOTAS SOBRE A CULTURA DE CEREAIS, OS FORNOS E O PÃO CASEIRO

MEMÓRIAS DE MOURISCAS/ABRANTES
Algumas notas sobre a cultura de cereais, os fornos e o pão caseiro
 
A cultura dos cereais, de importância vital para a sobrevivência do mundo agrícola, foi uma importante fonte de energia alimentar, tanto humana como dos animais domésticos.
 
Das suas plantas tudo se aproveitava: grãos, caules e folhas.
 
Da aveia e da cevada, quando ceifadas verdes, preparava-se o ferrejo ou ferrã, que servia de alimentação dos animais. Quando maduros, os seus grãos, normalmente, eram utilizados, em farinha ou não, como ração de bovinos e muares.
Na freguesia o centeio e o trigo eram semeadas nas terras mais fracas que não prestavam para a cultura do milho.
 
Depois de ceifados, a malha ou debulha dos cereais, feita em eiras circulares, de terra ou de cimento, tinha lugar, no mês de Julho e Agosto, tempo quente e seco e com ventos norte regulares. Os pequenos proprietários utilizavam para o efeito processos artesanais: os manguais ou mangoêras ou moueiras e o pisoteio.
 
O cereal depois de malhado era limpo com a ajuda de uma pá de madeira, própria para o efeito e do vento, que atirava a moinha para longe.
 
Do centeio, cevada, aveia e do trigo, depois de malhados, para além dos grãos, aproveitava-se a palha, enfardada ou avulso, que era guardada em palheiros ou outros locais apropriados, para o sustento dos animais, durante o ano.
 
Do centeio, para além do grão, que depois de farinado servia para fazer pão, simples ou de mistura, aproveitava-se o colmo que tinha múltiplas aplicações: fabrico de albardas e bornis e dos enxergões das camas, entre outras.
 
Do milho, aproveitava-se o grão, as bandeiras e as camisas. Aquelas, depois de secas, para alimento dos animais, e, estas, para encher enxergas, enxergões, travesseiros e almofadas das camas. Também se semeava para ser ceifado em verde, antes de florir, destinando-se, então, ao consumo dos animais domésticos .
 
Os cereais foram, durante séculos, transformados em farinha nos moinhos de água e azenhas existentes no rio Tejo e nas ribeiras da Arcês(margem esquerda) e de Rio Frio(margem direita)e moinhos de vento instalados em postos altos, sendo levados ao local da farinação pelos próprios agricultores ou pelos moleiros que, semanalmente, se deslocavam a casa dos seus fregueses para carregar o cereal e, depois levar a farinha, que eram transportados, dentro de foles de peles de cabra ou de sacos de tecido, em cima das albardas de muares ou asininos ou de carros de bestas, de um ou dois varais.
Mó secundeira a funcionar. Foto de Carlos Bento   
 
Depois a farinha era separada dos farelos com a ajuda de peneiras. Umas de malha metálica mais larga para a de milho e outras de malha mais fina para a de trigo, que permitiam a obtenção de uma farinha muito branca, destinada ao fabrico do pão de trigo ou pão alvo, dos fritos e belhozes do Natal e de toda a bolaria dos tempos festivos, como na Páscoa, Casamentos, Baptizados, Matança do porco, Festa comemorativa do Orago S. Sebastião, Festas do Verão, ... .
 
Com a farinha de milho amarelo, o mais cultivado, confeccionava-se o pão de milho ou broa, alimento do dia-a-dia, as broas dos Santos, as migas, a mexuda, ... .
 
Os farelos e as sêmeas serviam para temperar a vianda dos porcinos e alimentar as aves de capoeira, que eram misturados com couves migadas.
 
Para cozer o pão, elemento básico na alimentação dos mourisquenses, existiam os fornos individuais, na posse da maioria das famílias mourisquenses, aquecidos a lenha e matos diversos.
O forno familiar tradicional. Foto de Carlos Bento
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Pão de trigo no forno
O processo de cozer o pão estava revestido de grande sacralidade: as acções de amassar, tender, meter no forno eram sempre acompanhadas de bênçãos e rezas.
O pão de cada fornada, entre os 8 a 10 pães, era consumido durante a semana. Para que não endurecesse, o pão era colocado dentro de panelas ou dentro de arcas.
 
O abandono da cultura dos cereais, verificado depois da 1960, foi determinante, não só no desaparecimento dos moleiros e na morte e no abandono de azenhas e moinhos, como também no fabrico pão caseiro e de grande número de fornos individuais.
 
Depois daquela data, generalizou-se o consumo do pão de trigo, que perdeu o seu cunho "aristocrático" e passou a ser alimento do dia-a-dia, de todas as famílias, passando os padeiros das freguesia e freguesias vizinhas, a partir de então, a percorrer todos os caminhos da freguesia, para oferecer tão precioso alimento, que, assim, chegava a todos os lugares.
 
A conservação dos cereais constituía um problema para os seus produtores. Pelo trabalho neles investido, de Novembro a Agosto, e pela sua importância alimentar na vida familiar, a sua principal preocupação era defendê-los do ataque do gorgulho e conservá-los em bom estado durante o maior tempo possível.
 
As técnicas de conservação utilizadas pelos agricultores, eram naturais e muito rudimentares. O milho, o trigo e o centeio guardavam-se, habitualmente, em arcas de choupo ou nogueira, potes de barro.
 
Investigação e texto de Carlos Bento, antropólogo e prof. universitário.
 
publicado por casaspretas às 11:35
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